“O pacote ortográfico e a poesia”

02/03/2009 at 2:03 pm 1 comentário

Reformas ortográficas na língua portuguesa não são novidades. Mudanças oficiais são feitas desde 1911 em Portugal, ocasião em que não houve nenhum acordo com o Brasil. Depois disso, durante muitos anos, foram várias as tentativas de se unificar em todo o mundo a forma escrita dos luso-hablantes.

Uma delas aconteceu em 1986 e fui conhecer apenas há alguns dias. A ideia era acabar com os acentos gráficos, inclusive em palavras proparoxítonas e paroxítonas. A justificativa era que os acentos não são indispensáveis, já que a forma falada vem antes da escrita e, por causa disso, muita gente não utilizaria esses sinais.

Pelo jeito a proposta considerada polêmica foi amplamente criticada em Portugal e acabou morrendo antes de ser implementada.

Paulo Leminski

Paulo Leminski

Na época em que o novo pacote ortográfico foi anunciado, Paulo Leminski ficou entusiasmado com as novas possibilidades que essa nova reforma traria para a poesia. Achei o texto no livro Ensaios e Anseios Crípticos, publicado em 1997. Não consegui descobrir em que ano foi escrito, mas acredito que deve ser de 1986 mesmo.

Vale a pena dar uma lida – clique no link abaixo:

O pacote ortográfico e a poesia

Paulo Leminski

As novidades ortográficas que aí vem, orquestradas por mestre Houaiss (quem diria que um árabe, um mouro, um dia, teria tantos poderes sobre a grafia da língua dos cristãos, por Santiago!, “Allah hu-Akbar!”), por mexerem na matéria da língua, terão conseqüências imprevistas sobre a poesia, lugar onde a língua se despe da alma e fica toda matéria substância.

E se disse “imprevistas”, só posso estar dizendo “positivas”, já que a poesia, de certa forma, é nada mais, nada menos, que um ramo rico da Surpresa, movimento da linguagem em direção ao Desconhecido.

A transformação da fala em letras é um dos momentos mais emocionantes da história do macaco-homem.

E é na diferença, no micro-instante claro-escuro da passagem da fala para a escrita que se produz a poesia, esse sempre resultado do atrito entre (dois ou mais) códigos.

Neste momento de parto de um novo sistema ortográfico, é preciso que se diga: muitas das novidades da reforma já eram prática comum na área da poesia e do texto mais criativo. A vanguarda, a poesia concreta e o concretismo difuso que, desde então, assola esparsamente, a poesia do País, já cometeram todas as heresias, praticaram todos os “erros”, já fizeram do torto o direito e exigiram, do torto, o direito de escrever certo por entrelinhas equivocadas.

Bem-vinda a reforma que transforma as proparoxítonas em paroxítonas.

Exército. Olhem bem pra essa palavra, olhem atentamente. Daqui a pouco, vocês nunca mais a verão. Com a morte do acento nas proparoxítonas, “exército” vai se escrever “exercito”. Não distinguiremos mais o substantivo da primeira pessoa do verbo, a não ser pelo contexto. Uma frase, como, por exemplo”eu exercito o meu exercito” (vai dar a impressão de um exército bem pequeno, “chiquitito”, um exercito, substantivo).

Me preocupa também os problemas do par “ânimo” e “(eu) animo”.

Conseguem entender isto: “enquanto animo meu animo, animo é o que não tenho para saber o que amo”? Não? Eu também não. O que é ótimo,

Houaiss, e seu exército multincacional de gramáticos e filólogos (alguém ali, maior que Houaiss? Duvido), estão criando um bruto problema para a prosa e a correspondência comercial. Mas estão, talvez, inaugurando uma nova era na poesia brasileira.

Por subverter os códigos de registro. Mestre Houaiss e Seus Beduínos Legiferantes abrem novas áreas do improvável, insuspeitadas associações, deslizes indectetáveis a olho nu, hiatos entreo o sabido e o não ainda percebido, parentescos sonoros, semânticos, até sintáticos, novos. Um “estranhamento”, diriam os formalistas russos, pouco antes de Stálin Fuzilá-los.

Esse é o clima natural onde a posia respira, medra e fermenta. Vamos entrar numa nova época da poesia brasileira.

Uma era onde não se pode distinguir, materialmente, entre “esdrúxulo” e “(eu) esdrúxulo” (eu tropeço). Faço desde já meu verso, a título de reserva lírica: “Esdrúxulo, esdrúxulo”. Como se grafava, antigamente: “Esdrúxulo, esdrúxulo”.

Não riam dizendo, coisa de poetas. A genre já estava lá, lembram?

A bagunça vai ser geral. Esse País já estava ficando divertido com a “República Nova”. A morte de Tancredo, a eleição de Sarney. O pacote-Funaro deixou a classe trabalhadora rindo, de orelha a orelha. Com o Pacote Ortográfico, atingiremos o orgasmo cósmico da satisfação nacional.

Empresários, operários, curtam bem seus últimos dias.

Em breve, sereis “empresários” e “operários”. E rimareis com “rios”, “navios”, “extravios”.

Nesse aspecto a Reforma vai provocar um colapso no sistema sonoro fundamental do verso e da rima, baseados na vogal da sílaba tônica. É de tônica em tônica, de vogal tônica em vogal tônica, que se tece a fina teia aracnídea da poesia. Esta Reforma introduz um ruído, uma indeterminação, na tônica (alô, alô, Dona Tonica, amor de tônica, fica?).

Esse colapso só pode ser benéfico. A poesia precisa dessas diferenças, dessas portas secretas, subitamente abertas, entre vocábulo e vocábulo, entre raiz e raiz, entre sílaba e sentido. Fora dessa temperatura, a poesia vira prosa, na hora, como o vagalume que, à luz do dia, não passa de um inseto, mas à noite é uma magia.

Mal posso esperar por um mundo onde “espetáculo”, “espetáculo”, rimará por fim, com”pulo” e com “articulo”.

Um universo onde a antítese será, simplesmente, a antitese. E o “espírito”, enfim, liberto das amarras terrestres de um acento, seja um “espírito”, uma rima para “rito”. Veremos obras chamadas “Ritos do Espírito”. Não haverá mais diferenças entre o “inválido” e “(eu)invalido”. Os “pálidos” ficarão “palidos”. Os “máridos” serão “maridos”. E as pérolas serão “perolas“ (rima com “carambolas”), como no verso: “as palidas perolas”. O que rima com “as falidas carambolas”.

“Súbito, por fim, rimará com “habito”. “Tártaro” com “desamparo”. E “Cáucaso” com “acaso”. “Cômico”, com “mico”. E não distinguiremos mais entre o “fotógrafo” e a voz que diz “eu fotografo”.

Para os poetas é uma maravilha, os labores de uma Era de Ouro.

Quanto aos outros, se preparem.

Quem já era ignorante, vai ficar mais ignorante ainda.

Como se já não tivéssemos problemas bastante…

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Li Wei Compromisso com a música

1 Comentário Add your own

  • 1. ramiro  |  23/03/2009 às 5:38 pm

    Aeeeeeeeeeeeee mestre Heitor, muito bem brô!!!!

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